Artista multifacetado, Gambino protagonizou clipe que alcançou 100 milhões de visualizações em sete dias (Foto: Reprodução/YouTube)

Opinião

Internautas não falam de outra coisa há uma semana. O artista americano Donald Glover, que também usa o nome de Childish Gambino, quebrou a internet com o clipe de sua nova música “This is America” (Esta é a América), que obteve a marca de 100 milhões de visualizações em sete dias. Mas por que a produção teve tanta repercussão e como nós, brasileiros, podemos aprender com as mensagens deixadas por ela?

Para começar a responder estas questões, é necessário entender que o clipe de Gambino bate – e muito forte – no racismo. Para tanto, o rapper, que também é roteirista e ator, fez uma parceria com o diretor Hiro Murai. Juntos, eles abusaram de mensagens implícitas e explícitas com o objetivo de relembrar casos emblemáticos que terminaram com a morte de negros.

O primeiro caso é o assassinato de Trayvon Martin, de 17 anos, em 2012, na Flórida. O jovem foi baleado pelo ex-vigia George Zimmerman após uma discussão entre os dois. Apesar de toda a comoção, Zimmerman foi absolvido.

No clipe de Gambino, logo na cena inicial, um ator, que possui grandes semelhanças com Tracy Martin, pai de Trayvon, começa a tocar violão. Na cena seguinte, com o rosto coberto, ele é morto com um tiro disparado pelo próprio cantor.

Tracy Martin e ator "sósia" (Fotos: Reprodução/YouTube)

A arma do crime é retirada com todo o cuidado possível. Vale ressaltar que, em 2016, Zimmerman tentou leiloar o revolver utilizado no assassinato de Trayvon. Esta é uma crítica de Gambino ao culto que os americanos fazem às armas de fogo, algo que já foi tema do excelente documentário “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

Nestes primeiros segundos de clipe (ao todo, o vídeo tem 4min 04s), Gambino já aparece com uma calça cinza semelhante à usada pelo antigo exército dos Estados Confederados da América. Este grupo defendia a manutenção da escravidão nos EUA, durante a Guerra Civil, em meados do século 19. Aliás, o rapper utiliza esta vestimenta até o fim da produção.

Na hora de atirar no ator que se parece com Tracy Martin, Gambino faz uma pose inusitada e proposital. Ele imita o personagem Jim Crow (Crow é corvo em inglês), criado pelo ator norte-americano Thomas D. Rice, por volta de 1830, e que mostra o negro de uma forma debochada. Um pouco antes, o cantor faz a cara de outro personagem racista: Uncle Ruckus (Tio Ruckus), que, curiosamente, é negro, mas nega a própria cor.

Personagem Uncle Ruckus não aceita o fato de ser negro (Fotos: YouTube)

Na sequência, Gambino faz menção a um segundo caso em que negros são mortos: o atentado a uma igreja em Charleston, também nos EUA, ocorrido no dia 17 de junho de 2015, no qual nove pessoas morreram. Mais uma vez, o cantor interpreta o assassino e a sua arma é recolhida com “carinho”. Enquanto estas e outras atrocidades são representadas no clipe, o artista dança como se nada estivesse acontecendo. De novo, ele critica a atenção que a população e a mídia dão a coisas banais, ignorando o que realmente importa.

Jim Crow é a personificação de como alguns brancos enxergam costumes negros (Fotos: Reprodução blackpast.org/YouTube)

E o que o Brasil tem a ver com isto? Tudo. Um levantamento feito pelo portal G1, nesta segunda-feira, 14, mostra que negros ocupam vagas sem qualificação, enquanto os brancos estão nos empregos de elite. Obviamente, esta discrepância provoca um abismo salarial – negros recebem R$ 1, 2 mil a menos em média no País. Para se ter uma ideia da diferença, 92% dos engenheiros de equipamentos em computação no Brasil são brancos. Já 92, 7% dos trabalhadores que atuam na cultura do dendê são negros.

Por outro lado, os negros são líderes em uma estatística nem um pouco animadora, pois são 71% das vítimas dos homicídios cometidos no País, segundo um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Analisando estes números, chegamos à conclusão de que a canção “This is America” poderia muito bem ser chamada “This is Brasil”. Não à toa, o diretor Hiro Murai afirmou que o brasileiríssimo filme “Cidade de Deus” foi inspiração para o clipe de Gambino.

Afinal, aqui, nem uma vereadora, com a quinta maior votação na cidade que é considerada o nosso cartão postal, conseguiu escapar da desconfiança e de comentários maldosos mesmo após ser brutalmente assassinada. Este é o Brasil.

*Vinícius Bacelar é jornalista e editor do site Metrô News

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