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Uma tragédia à brasileira e uma inquietante questão

06/10/2017 9:33 AM / Editorial / Atualizado em 06/10/2017 9:33 am

Um segurança de 50 anos, Damião Soares dos Santos, fez a pequena Janaúba, no Norte de Minas, se tornar conhecida nacionalmente. Até então, a cidade de 71 mil habitantes era apenas mais um dos 853 municípios mineiros, que tinha como filho mais famoso o ator global Jackson Antunes. Mas, ao colocar fogo no seu próprio corpo e matar a si e a outras seis crianças e uma professora, além de deixar feridas dezenas de outras, Damião construiu uma tragédia que, logo, ganhou dimensões. No Google, às 10h de ontem, eram feitas, em média, 80 pesquisas por minuto envolvendo o assunto; por volta das 13h, esse índice atingiu o pico de 100.

São dramas como o de Janaúba que colocam à prova o bom senso de toda uma nação. Nos EUA, a carnificina de Las Vegas pôs mais uma vez na pauta o debate sobre a facilidade para se comprar uma arma no mercado local. No Brasil, algumas questões serão suscitadas. Mas, uma delas perdeu força com o óbito do vigia: a pena de morte. Enquanto Damião ainda agonizava e as informações ainda eram desencontradas, um ouvinte ou outro de uma rádio de São Paulo já expressava a opinião para que a pena capital fosse aplicada em casos deste tipo.

Diante da violência à qual o brasileiro é exposto diariamente, seria até explicável que o assunto tivesse a simpatia de uma maioria. Tem até um candidato à presidente da República, Jair Bolsonaro, que é um histórico defensor desta posição. Mas a questão é mais antiga. No fim da década de 1980, o então deputado federal Amaral Netto apresentou sua PEC 1/1988, que pedia a instituição da pena de morte, alterando o artigo 5º, Inciso XLVII, alínea A da Constituição. Ele defendia até um plebiscito sobre o tema, que não avançou. Outros parlamentares levantaram a mesma bandeira, até agora sem sucesso. É correto dizer que cada grupo tem suas razões e que o debate não pode ser omitido, em respeito à diversidade de opinião. No entanto, jamais poderá ser levado a sério quando essa complexa questão for trazida à tona depois de atitudes extremas e que ferem a sensibilidade de todo um País.