notíciasDestaque Últimas

Entrevista com Marisa Patriarca

17/04/2017 10:03 AM / Raphael Pozzi / Atualizado em 17/04/2017 10:03 am

A gravidez indesejada na adolescência é hoje um problema de saúde pública ao redor do mundo. Nos países em desenvolvimento cerca de 20 mil meninas dão à luz por dia e o Brasil ocupa a 49° posição na lista de 231 países que apresentam maior índice de gravidez nessa fase da vida.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as gestações não planejadas, sobretudo em adolescentes, estão associadas às complicações no parto e no feto, abortos realizados de forma clínicas clandestinas, mortalidade materna e neonatal infantil, além do grande impacto socioeconômico.

Para a ginecologista Marisa Patriarca, professora de pós-graduação do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), um dos grandes problemas para que isso aconteça é a falta d educação sexual no Brasil. Segundo ela, a falta de informação gera esquecimento do uso de pílulas ou o desprezo ao uso de preservativo. E isso acaba trazendo enorme responsabilidade para os jovens.

Para a doutora, uma forma de diminuir a gestação em idade tão precoce é o uso dos contraceptivos intra-uterinos, conhecidos como DIU. Eles não comprometem a saúde da menina, de acordo com ela, e ainda são muito eficazes e trazem muita segurança.

 

Metrô News – Qual é o maior problema da gravidez na adolescência?

Marisa Patriarca – Como ginecologista, eu posso falar especificamente para as meninas, sem contar todos os problemas de origem socioeconômicos, que vão atingir a todos. Elas são consideradas gravidezes de risco e isso acaba gerando um ramo de decorrências. Além disso, existe uma maior chance de nascimento prematuro, por exemplo. Tem que ter muito cuidado porque o que se observa é que a prática sexual tem começado cada vez mais cedo. A garota precisa de orientação o mais rapidamente possível, inclusive utilizando métodos contraceptivos.

 

Existe algum que seja 100% garantido?

Não, só a abstenção, o que não é o caso. Mas os métodos são muito próximos dos 100%. Existem riscos mínimos de falha. O que é mais popular e que os adolescentes têm mais facilidade de acesso é o uso de pílulas. Mas, claro, também há problemas: normalmente eles acabam esquecendo ou não usam de forma ideal. Acabam deixando de lado o preservativo e, se esqueceram da pílula, aumenta o risco da gravidez. Eu sempre oriento que o uso tem que ser contínuo, independente de existir atividade sexual. Tem um outro método, que é o contraceptivo reversível, de longa duração, como os intra-uterinos DIU. Eles são os mais seguros e não sofrem com esse risco do esquecimento pois duram de três a dez anos.

 

A implantação do DIU não é arriscada para o organismo da jovem?

Não. Antes existia um mito de que a adolescente não poderia usar, mas hoje a gente sabe que isso não afeta a fertilidade da garota.

Mas quero deixar bem claro que não há risco desde que ela não tenha um ato sexual promíscuo, nem deixe de utilizar camisinha. Eu explico: o DIU pode prevenir a gravidez, mas não tem nada a ver com doenças sexualmente transmissíveis. Aí entra a questão da importância dos alertas aos jovens. Antigamente, a gente via a Aids como um atestado de óbito: não sabíamos quando a pessoa morreria, mas era certeza que aconteceria.

Hoje os adolescentes se preocupam menos com isso porque nasceram em uma época que a doença está mais controlada, é possível conviver com ela. Mas é interessante ressaltar que são doenças. Elas matam.

 

O aborto é hoje um problema de saúde pública agravado pelas gravidezes indesejadas?

No Brasil é ilícito e, então, o que acontece é que a realização dos abortos é feita de forma criminosa. E isso gera risco. Não é a melhor opção. Previna-se para não chegar a esse ponto.

 

A gravidez indesejada acontece mais por negligência do jovem ou por falta de informação?

Eu ainda acredito que é falta de informação. Claro que um adolescente não quer engravidar, ter responsabilidade de cuidar de um filho. Apesar de existirem palestras, o SUS e ambulatórios públicos dão orientações, há ainda uma falta de apoio para a busca desse esclarecimento.

É importante existir planejamento familiar. Segundo o Datasus, 600 mil partos por ano são de mães com menos de 20 anos. Isso dá mais de 21% do total.

É muita coisa. Claro que é uma tendência mundial, mas o Brasil, por ser estar em desenvolvimento, sofre muito com isso.

 

A gravidez na adolescência pode gerar problemas físicos nas mães?

Não, isso não. O que é mais comum é aquilo que te falei, um provável parto prematuro, o bebê com baixo peso ao nascer. Até o óbito da criança e da mãe.

 

Falta aos pais uma conversa mais franca com os jovens sobre o assunto?

Sim. Os pais, como educadores, não podem se omitir de falar sobre isso. O jovem tem relação sexual cada vez mais cedo. Se eles não conversarem, os adolescentes não terão uma proteção, entende? A situação piora. Eles precisam dar uma abertura, conversar sobre o assunto é o primeiro passo.

 

E nas escolas?

Também falta um pouco de educação sexual. Existe um pouco, claro, mas não é o suficiente. Porém eu ainda vejo que os pais falham bastante nessa questão.

 

Se o pai quiser fazer alguma coisa, orientar, e não souber como fazer. Existe alguma dica?

Sim, procurar profissionais específicos. Ele consegue marcar uma consulta em um setor de planejamento familiar no próprio serviço público. Não tem motivo para não fazer isso. É bem simples.